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Protestos anti-imigrantes na África do Sul: o que está por trás da crescente tensão?

A África do Sul volta a viver um momento de forte tensão social após grupos anti-imigração apelarem para que todos os estrangeiros sem documentação abandonem o país até terça-feira. O ultimato antecede manifestações marcadas para várias cidades, incluindo Joanesburgo, levantando receios de novos episódios de violência xenófoba.

Nos últimos dias, milhares de migrantes africanos procuraram regressar aos seus países de origem ou refugiaram-se em acampamentos improvisados por medo de ataques. Apesar disso, os organizadores do movimento “March and March” afirmam que os protestos terão carácter pacífico.

Porque é que os manifestantes culpam os imigrantes?

Os grupos anti-imigração defendem que a África do Sul enfrenta uma entrada excessiva de estrangeiros em situação irregular. Segundo estes movimentos, os imigrantes ocupam postos de trabalho destinados aos sul-africanos, pressionam hospitais e escolas públicas e contribuem para o aumento da criminalidade.

Durante uma conferência de imprensa realizada recentemente, líderes de organizações civis afirmaram que muitos cidadãos sul-africanos estão cansados de enfrentar longas filas nos hospitais, da escassez de vagas nas escolas públicas e da elevada concorrência por empregos.

A opinião pública está a mudar?

Diversos estudos mostram um crescimento significativo da rejeição à imigração.

Uma pesquisa do Human Sciences Research Council revelou que apenas um em cada seis sul-africanos afirma aceitar a presença de todos os estrangeiros no país, enquanto cerca de 42% defendem não aceitar nenhum.

Outro inquérito do Afrobarometer concluiu que sete em cada dez cidadãos acreditam que os imigrantes têm um impacto negativo na economia nacional. Além disso, 85% consideram que o governo deve reduzir drasticamente a entrada de refugiados ou impedir completamente novas chegadas.

A realidade confirma estas acusações?

Embora os protestos ganhem força, especialistas afirmam que muitos dos argumentos utilizados contra os migrantes não são sustentados pelos dados disponíveis.

A África do Sul está “invadida” por imigrantes?

Não.

Dados oficiais indicam que, em 2023, o país tinha aproximadamente 3,1 milhões de migrantes, representando cerca de 4,1% da população.

Esta percentagem é inferior à registada em países como Reino Unido, Canadá ou Austrália.

Investigadores sublinham que existe uma perceção pública muito superior à realidade estatística.

Os estrangeiros são responsáveis pelo aumento da criminalidade?

Também não existem provas concretas.

As autoridades sul-africanas não divulgam estatísticas criminais por nacionalidade. Contudo, dados do sistema prisional mostram que cerca de 6% dos reclusos são estrangeiros, sendo muitos detidos apenas por infrações relacionadas com imigração.

Especialistas em migração afirmam que não existem evidências de que os migrantes cometam mais crimes do que os cidadãos sul-africanos.

Os imigrantes retiram empregos aos sul-africanos?

Um relatório do Banco Mundial indica precisamente o contrário.

Segundo o estudo, cada trabalhador migrante pode contribuir para a criação de aproximadamente dois postos de trabalho destinados a cidadãos sul-africanos, graças ao aumento da atividade económica.

Os migrantes trabalham, consomem produtos locais, pagam rendas e utilizam serviços, impulsionando pequenos negócios e o comércio.

Os migrantes sobrecarregam hospitais e escolas?

Especialistas consideram improvável que migrantes sem documentos utilizem regularmente serviços públicos, uma vez que receiam ser identificados pelas autoridades.

Economistas defendem que os principais problemas dos serviços públicos resultam de décadas de subinvestimento, má gestão e corrupção, e não da imigração.

Porque cresce a xenofobia na África do Sul?

As causas são complexas e vão muito além da imigração.

A África do Sul enfrenta uma das mais elevadas taxas de desemprego do mundo, profundas desigualdades sociais e dificuldades persistentes na prestação de serviços públicos.

O descontentamento popular aumenta à medida que milhões de pessoas enfrentam dificuldades económicas.

Analistas afirmam que, em períodos eleitorais, alguns líderes políticos utilizam o tema da imigração para mobilizar eleitores, desviando a atenção de problemas estruturais como corrupção, crescimento económico lento e fraca governação.

O risco de violência preocupa autoridades

A história recente da África do Sul é marcada por vários episódios de violência xenófoba, especialmente contra cidadãos do Zimbabué, Moçambique, Nigéria, Etiópia e outros países africanos.

Com novas manifestações marcadas para os próximos dias, organizações da sociedade civil apelam à calma e ao respeito pelos direitos humanos, receando que o discurso anti-imigração possa transformar-se novamente em ataques contra comunidades estrangeiras.

Conclusão

Os protestos anti-imigrantes refletem o crescente descontentamento social vivido na África do Sul, mas especialistas alertam que muitos dos argumentos utilizados contra os migrantes não encontram respaldo nas estatísticas oficiais.

Fonte:Reuters/Ponto Sul

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